Posts Tagged ‘On fiction’

Um sonho que tive.

julho 30, 2009

No dia 20 de abril, tive um sonho, o qual relato aqui com os devidos polimentos e preucações de quem faz sentido duma história sonhada.

Já há muito tempo, quando ainda havia pescadores na região da baía, todos conheciam a lenda do peixe dourado. Diziam que era o maior, mais pesado e mais suculento peixe de todo o oceano; e suas escamas amareladas brilhavam quando vinha à superfície. Seus domínios eram em alto-mar, longe da baía. Águas solitárias e sombrias. Diziam que o peixe só aparecia ao luar.

Alguns poucos tentaram pegar o misterioso peixe: um deles, um pescador, armado com a melhor vara e o melhor anzol, foi a alto-mar enfrentar a lenda. Estacionou seu barco num banco de água igual aos outros e ali ficou. Por dois dias, não pegou nada. Até que, na noite do terceiro dia, sentiu sua linha sendo puxada com tanta força que quase arrastou-o do barco: sua presa o havia encontrado. Lutou e lutou contra as investidas. Finalmente, conseguiu capturá-lo: e ele era a coisa mais bela que já se viu nesse mundo.

Retornou à baía pela manhã, quando seus companheiros zarpavam. Viram-no. Quando o brilho de dentro do barco quase os cegou, sabiam que seu companheiro conseguira a façanha que nenhum outro deles conseguira.

Após uma rodada de congratulações e aplausos, as risadas foram cessando e as palmas silenciando. O peixe dourado, a derradeira presa que o mar tinha-lhes oferecido, fora finalmente capturado.

“E agora?”, um perguntou. “Que falta capturarmos do mar?”

Entreolharam-se. Alguns com pânico, outros coçavam a cabeça, olhavam para o céu. Aquele que pescara o peixe dourado disse, então, cabisbaixo, meio incerto de suas palavras:

“Bem, ao menos nós sempre teremos o peixe sagrado para pegar.” “Peixe sagrado?”, perguntaram os outros. “Sim”, disse ele, “Pois não sabem? O Grande Peixe que afungetara o peixe dourado de seu antigo covil no fundo do mar. Diziam que, já há muito tempo…”

Quem és tu?

abril 11, 2009

Encontrei um pedacinho de papel na minha bancada. Não reconheci a letra.  Diz ele, misteriosamente:

nasceu na Rússia

cresceu na África

mudou-se para América e

morreu no Japão.

março 10, 2009

– Se ajeite, meu velho: Converse com ela, flerte um pouco. Não se aflija. Nada demais irá acontecer caso vocês não fiquem juntos – me escute. Vocês continuarão vivendo suas vidas, indo aonde estavam indo antes de se conhecerem; antes de qualquer coisa ou amor ter surgido na sua cabeça. Eu lhe garanto. Tudo vai ficar bem.

– Então porque eu não me sinto melhor?

Indo à aula, segunda à noite, duvido de minha materialidade.

janeiro 13, 2009

17h30, give or take, atravesso a 13 de maio. Daqui a pouco, dobrarei a direita. Mantenho-me na faixa da direita. À esquerda, voltando, passa um fiat de cor vinho, modelo antigo, de arestas pontudas, quadradão. Dentro, quem guia é meu antigo professor de biologia. Tem pressa. Observo-o. Ele me olha uma vez, e olha para frente. Continuo observando, e ele me olha outra vez. Acena com o polegar estirado para mim e respondo, repetindo o gesto.

Reconheceu-me ou, já tão acostumado, percebeu-se observado por um antigo aluno?

Meu conto de natal.

dezembro 25, 2008

Reunimo-nos na sala. Éramos muitos, mas minha família contava apenas meu pai, minha mãe e eu. Sentaram-se juntos, enquanto meu lugar era afastado, no fim do semi-círculo. Em sentido horário, cada um diria o que achava ser o verdadeiro sentido do natal. Falaram sobre o menino Jesus, outros sobre o nascimento de deus, época de mudanças, tempo de família.

Meu pai cruzou as pernas, posicionou um braço no ombro de minha mãe e uma das mãos sobre o joelho. “Alguns já falaram sobre o que ia dizer, mas, apenas complementando; o natal, para mim, é o momento em que eu penso, antes de tudo… na minha querida mãe. Ela já se foi faz muito tempo, mas o natal, todo ano, retorna a lembrança, e sempre fico muito triste pensando nela. E embora não deixe que outros percebam, mas eu sempre choro muito nesta época.”

Outros falaram. Menino Jesus, nascimento de deus, tempo de família. Meu pai mostrava os dentes, sorrindo. Eu esperava, observando,  pelo momento que ele levantaria as mãos ao rosto, discretamente enxugando as várzeas da face. Não o fez.

E para você, Caio? Qual o sentido do natal?

Respondi entrecortado: “Para mim? Bem, para mim, o natal é quando eu sei que o aniversário do meu pai está chegando. Daqui a seis dias ele faz anos. É isso… eu acho. O natal é a época em que penso no meu pai.”

Fui interrompido pelo próximo da fila. Julgou ter eu terminado. Minha tia ainda me perguntou: “Você já terminou, meu filho?” Olhei meu pai. Apertava os olhos, me observando. Sorria. “Sim, sim. Terminei.”

Sala de espera.

dezembro 4, 2008

– Até a próxima semana.

– Até, Caio. – Fecha a porta. A diminuta sala de espera guarda algumas revistas e um ventilador que procura algo. Uma senhora de preto de cabeça baixa usa uma página dupla para esconder o olhar.

– Boa-noite. – Digo-lhe. Nenhuma resposta. Alguns respondem, outros não.

Ad infinitum.

novembro 21, 2008

Ocorreu-me certa idéia, talvez absurda: começaria escrevendo uma pequena história neste blog; um post e nada mais. Não a continuaria, e passaria seu encargo para outro blog, talvez algum da lista ao lado. Como num meme. Continuaria o enredo noutro blog até o momento em que fosse ser passada à frente novamente, para outro blog ainda. E neste a história continuaria, até que fosse para outro blog, e deste para outro e outro… Até que para entender o enredo, o leitor teria de atravessar todos e tantos os blogs pelos quais história mesma passou. Ela seguiria, incontrolável, e se perderia nos hyperlinks da blogosfera, até que seu começo não pudesse mais ser encontrado. E, então, finalmente, ela deixaria de ser história para tornar-se fábula.

Christmas.

novembro 21, 2008

Um gole, um olhar distante, um sorriso.

– Nós deveríamos sair para dançar qualquer dia.

– O café está bom?

Outro gole. Silêncio. O café estava bom, sim, mas pensava ainda naquela noite de natal, no rinque do Rockefeller Center. Skating the night away.

Champs-Élysées.

novembro 5, 2008

Ao reparar o círculo dourado em seu dedo, perguntei:

– Ah, está noiva?

Ao que ela respondeu-me com um sorriso e um golé de café:

– Não. Era do meu pai.

O bigode dos escritores. (i)

outubro 23, 2008

Durante o período pós-guerra, muitos escritores procuravam novas maneiras de lidar com o bafo da matança ainda fedendo no cangote: no noroeste europeu, o autor de Ulysses optava pelo bigodinho aparado em acordo com a linha nasal, seguido de um cavanhaque malamanhado. Um pouco mais abaixo, atravessando a Mancha, também Fernando Pessoa transitava pelo mesmo território capilar, mas com o bom tom de cortar fora o inoportuno pêlo sub-facial. Podia-se notar a confluência da literatura européia para uma linha mais acima do lábio superior. O movimento, influenciado por Nietszche, encontraria dissidência em Marcel Proust, que alongou o bigode e apontou as pontas, abaitolando o negócio.